Global Asbestos Congress 2000

A SAÚDE E AS RELAçÕES DE GêNERO DOS TRABALHADORES DE UMA INDÚSTRIA TêXTIL DE AMIANTO NO RIO DE JANEIRO

VANDA D'ACRI, HERMANO ALBUQUERQUE DE CASTRO,
MARIA BLANDINA MARQUES DOS SANTOS,
KATIA REIS DE SOUZA, CYRO HADDAD NOVELLO

Ministério da Saúde
Fundação Oswaldo Cruz
Escola Nacional de Saúde Pública
Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana

Abstract:

Care provided by the Center for the Study of Workers Health and Human Ecology at the National School of Public Health (CESTEH) to 73 workers dismissed from an asbestos plant in Rio de Janeiro identified 22 workers with a diagnosis of asbestosis, confirmed by clinical and X-ray examinations and by respiratory function . This study originated from one woman worker's requesting medical care from the CESTEH as a result of her health having been affected by 14 years' exposure to this mineral fiber in an asbestos fabric plant. In the course of 1998 and January 1999, the study interviewed 41 workers (23 women and 18 men) who had been dismissed from the factory. The sample thus comprised 57% women and 43% men.

These had worked for employment periods of between 3 and 27 years under contract to the same company. Most of the workers *in the sample had been employed for between I I and 19 years, after which they were dismissed. The average period of employment in the factory is around 15 years.

Of the 41 workers interviewed, the diagnosis for 15 was asbestosis and, for 26, normal. Of the 15 workers diagnosed as suffering from asbestosis, 7 workers had been employed for between 9 and 15 years. These represent 47% of the workers with the illness, which reflects the high rate of morbidity caused by the asbestos industry.

This is the period when the symptoms of the disease - tiredness and respiratory difficulties with consequently reduced productivity - begin to appear.

Gender Relations:

Women's position in the labor context is related to their subordination in society as a whole. The concept of gender indicates that this is not a natural phenomenon but a social construct which goes beyond the biological realm, is centered on relations between men and women and is the result of the imposition of cultural and psychological meanings on sexual identities.

The production hierarchy works differently for men and women. Gender relations can be observed and are experienced in everyday workplace activities. The increase in machine speeds, for instance, which entails an increased workload, is treated differently for men and women.

Gender relations in the factory produce hierarchical relations in the family and in society, where women occupy a subordinate position.

Introdução:

A pesquisa desenvolvida no Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (CESTEH/ENSP/FIOCRUZ) entrevistou 41 trabalhadores que foram demitidos da fábrica, sendo 23 mulheres e 18 homens durante o ano de 1998 e janeiro de 1999. A amostra correspondeu a 57% do sexo feminino e 43% do sexo masculino.

Figure 1

O tempo de serviço situa-se de 3 a 27 anos de contrato de trabalho na mesma empresa. A maior concentração dos trabalhadores dessa amostra, se dá, no período de 11 a 19 anos de trabalho, período em que a maioria foi demitido. A média de permanência na atividade laborativa gira em torno de 15 anos.

Dos 41 trabalhadores entrevistados, 15 tem o diagnóstico de asbestose e 26 tem o diagnóstico normal. Dos 15 trabalhadores com diagnóstico de asbestose, 7 trabalhadores, correspondendo ao percentual de 36% tem a concentração por tempo de serviço entre 9 a 15 anos, correspondendo a 47%, do total de trabalhadores doentes, revelando assim, a grande morbidade causada pela indústria do amianto.

Este é o período em que os sintomas da doença, começam a aparecer: cansaço, dificuldades respiratórias com conseqüente redução de produtividade.

Os sintomas e o tempo de serviço, são os sinais para empresa a partir dos quais, os trabalhadores são demitidos. Esta forma de gerenciamento dos recursos humanos, demonstra que a lógica da demissão já está dada no próprio momento da admissão dos trabalhadores.

A morbidade é esperada, porém não é nunca anunciada. A empresa não presta informação sobre os danos causados pelo amianto e não fornece nenhum diagnóstico aos trabalhadores. Além disso, nega-se a reconhecer o nexo causal da asbestose relacionada a atividade na indústria, após comprovação do diagnóstico feito pelo CESTEH. Assim, periodicamente, um grupo de trabalhadores com tempo de serviço entre 10 e 15 anos, e com os sintomas característicos da utilização do amianto são demitidos.

Ocupações na Empresa

Entre os trabalhadores entrevistados, o setor de produção que concentra o maior número de trabalhadores é a fiação, com 19 trabalhadores (46.4%), em segundo lugar temos a tecelagem com 9 trabalhadores (22%); setores predominantemente feminino. Em seguida vem o PH, correspondendo a 7 trabalhadores (17%), setor predominantemente masculino.

Figure 2

A Fiação, a Tecelagem e o Papelão Hidráulico (PH)

Dos 15 trabalhadores com diagnóstico de asbestose, 10 trabalharam na fiação, correspondendo a 68% dos trabalhadores doentes, dividindo-se em 7 mulheres e 3 de homens; 2 trabalhadoras na tecelagem, correspondendo a 13%; significando 100% de mulheres e 2 trabalhadores no PH significando 13% dos trabalhadores doentes, correspondendo a 100% do sexo masculino.

Estes dados relativos a Fiação, Tecelagem e Papelão Hidráulico, revelam a intensificação do trabalho e a excessiva exposição a que estiveram submetidos os trabalhadores através dos setores de produção. Soma-se ainda a realização de horas extras, aumentando o tempo de exposição à fibra, o dispêndio de energia e o esforço físico.

A distribuição por sexo desses setores produtivos, segue a racionalidade da divisão sexual do trabalho nas empresas, onde os postos de trabalho feminino, como a fiação, exige uma atividade repetitiva, intensa, com habilidade, destreza manual, além de força e atenção. No caso dos postos de trabalho masculino, como o PH, a insalubridade e o perigo de contaminação e acidentes de trabalho são predominantes.

Figure 3 Figure4

A Fiação - Descrição da atividade laborativa

O amianto vinha prensado num saco de 60 kg s. As trabalhadoras desfiavam com as mãos as fibras de amianto, que era colocado no carregador das máquinas (boxe de fricção) que através da sucção de uma tubulação automática faz o processamento do amianto em um tipo de algodão.

Esse algodão vai para carda, que é responsável em fazer o fio de amianto, chamado pavio ou barbante. Este barbante (com forma similar a um queijo) vai para o filatório onde sofre a primeira torção, enchendo as espulas.

As espulas vão para as retorcedeiras que são chamadas de canelinhas ou canelão. As canelas tem 42 fusos e o canelão tem 72 fusos. Após a passagem pela retorcedeira, as canelas vão para as roca, outra máquina para mudança de embalagem, onde as canelas são transformadas em pequenos rolos e encaminhadas para tecelagem, para a gacheta e para o PH (papelão hidráulico).

Transformava a fibra do amianto em fio.
Recebia as mechas de fibra de amianto, colocava-as na gardela. Enrolava os fios nos carretéis (em média 150 por dia). Depois colocava os carretéis no carrinho com pontas de ferro, onde os carretéis eram enviados para outros setores".

Esta operação era repetida cerca de 8 a 10 vezes por dia, esta tarefa exercia movimentos de mãos e braços num ritmo intenso, além de exigir movimentos de abaixar e levantar o corpo por muitas vezes, descarregava de 20 em 20 minutos.

"A fibra de amianto possui, em determinados casos, um mistura com Rayon para dar a liga, quando esta mistura é fraca, a fibra arrebenta com grande facilidade. Assim, como os fios arrebentavam constantemente, também tinha a tarefa de emenda-los. Para isso, subia dois degraus várias vezes durante o processo de trabalho, e de 10 em 10 minutos desligava a máquina e limpava-a" (Trabalhadora de uma indústria têxtil de amianto). Este material (resíduo) era grosso e se não limpasse a máquina ela podia quebrar e as trabalhadoras assumiriam a culpa

"O produto feito de amianto (tipo um queijo) chegava até a FIAçãO, onde se transformava em um barbante fininho e frágil e enrolávamos na espula, depois disso ia para fiação e retorção (máquina retorcedeira). Eu pegava os barbantes fininhos e frágeis, cujo nome eram C-16, que rodava com 2 pontas, e arriava mais rápido; M-10, rodava com 8 pontas em uma máquina especial e SC-17, que era reforçado com fio de latão e cobre. Onde um era mais grosso que o outro e tinham finalidades diferentes, dali os fios iam para Gacheta ou para Tecelagem.

Chegava a espula, eu arrumava na máquina. Eram 72 fusos de 3 pontas (todos enrolados com os fios), era necessário duas funcionárias para colocar as espulas".

( R. - Trabalhadora de uma indústria têxtil de amianto)

Descrição das Atividades

Quando as trabalhadoras do setor da fiação chegavam ao trabalho, inicialmente, pegavam a banheira ou caixote cheio de canelinhas. Carregava até as máquinas. "As vezes a máquina já estava cheia, tínhamos que passar um óleo no anel com uma bucha, feita do próprio amianto, para que a máquina rodasse sem apresentar problemas. Cada vez que arrebentava o barbante tínhamos que parar para remenda-lo". Existe um freio para cada fuso, ou seja, a máquina trabalha de forma independente de um fuso para o outro, proporcionando meios de se emendar os fios que arrebentam sem ter de parar a máquina. "Fazíamos as emendas dos barbantes alguns com nós, outros com cola (acima de 4 pontas), e a máquina continuava a rodar". Em algumas vezes as canelinhas caiam de ponta em cima dos trabalhadores e a velocidade em que elas rodavam era muito grande, proporcionando um risco maior de acidentes graves.

No desenrolar do trabalho as espulas ou canelinhas, se esvaziavam na parte de cima da máquina, o que acontecia a todo instante, devendo ser trocadas, o que exigia um ritmo intenso de trabalho. Além disso, devido a altura da máquina, as trabalhadoras deviam subir uns degraus de madeira para alcançar as espulas, que ficavam no alto da máquina, para serem constantemente substituídas.

Quando os canelões estavam cheios se fazia a "arriada" das máquinas. Os canelões que levam mais fios de várias pontas, se enchem mais rapidamente fazendo a arriada da máquina mais rápido. Cada arriada pesava cerca de 80 a 100kg, dependendo da espessura dos fios se fazia um número maior ou menor de arriada.

Entende-se por arriada, o processo de retirada dos canelões ou espulas quando estes estavam completos, assim as trabalhadoras retiravam as espulas, colocando-as em um carrinho. Os trabalhadores levava-os para serem pesados. Tarefa executada somente por homens. A tarefa de retirada dos canelões, exigia muita força física das trabalhadoras, pois pesavam em média três quilos cada uma.
"Era um esforço direto de oito horas de trabalho".

A Política de Recursos Humanos

Os trabalhadores residentes na proximidade da fábrica, estão expostos a maior exposição. Estes dados revelam a tripla contaminação dos trabalhadores: nos postos de trabalho, no ambiente em torno da empresa e no local de moradia. Além disso, estas situações de riscos podem atingir também suas famílias e outros moradores que se encontram dentro da área exposta à poluição.

Outro fato de suma importância levantado pela pesquisa é a ligação dos trabalhadores que residem no Rio de Janeiro, com outras pessoas, parentes ou amigos de seu estado de origem, que são incentivados pela direção da empresa a chama-los para trabalhar na mesma. O percentual de 24.3% de trabalhadores naturais do Espirito Santo, pode ser considerado como um indicador da rede de relações familiares que a empresa utiliza para contratar os trabalhadores.

A política de recursos humanos da empresa é perversa, não havendo a menor preocupação com o estado de saúde dos trabalhadores, incapacitando não apenas um trabalhador, mas famílias inteiras, como observamos na pesquisa em andamento.

Trabalhadores que Possuem Familiares Trabalhando na Fábrica

Da amostra de 41 trabalhadores, 16 (39%) tem ou tiveram familiares trabalhando na empresa.

É importante observar que desses, 4 trabalhadores (25%) possuem mais de quatro familiares trabalhando na fábrica. Além disso, 4 trabalhadores (25%) possuem de 2 a 4 familiares na fábrica.

Dos trabalhadores entrevistados e demitidos, duas famílias possuem 4 a 6 familiares com diagnóstico comprovado de asbestose, sendo que 2, em estado avançado da doença.

Situação de Trabalho atual

Figure 5

Por ocasião da saída da fábrica dos 41 trabalhadores entrevistados, apenas 8, (19.5%) da amostra foram aposentados, os demais foram demitidos da empresa e, com o decorrer do tempo, muitos trabalhadores completaram o tempo para requererem a aposentadoria.

A situação de trabalho atual apresenta o seguinte quadro: 10 trabalhadores, (24% ), estão demitidos e desenvolvem atividades de trabalho informal. Oito trabalhadores (19.5%) estão empregados no mercado formal; 6 trabalhadores (14.6%) estão aposentados com outras fontes de renda e desenvolvendo trabalhos no mercado informal; 12 trabalhadores (29.4%) estão aposentados e não possuem outras fontes de renda, e, finalmente 5 trabalhadoras (12.1%), todos do sexo feminino, estão demitidas e impossibilitadas de trabalhar devido as precárias condições de saúde, resultantes dos anos de trabalho na indústria têxtil do amianto, principalmente no setor da fiação.

Entre dez trabalhadores demitidos que desenvolvem atividades no mercado informal de trabalho, seis são mulheres e quatro são homens.

As atividades femininas distribuem-se entre: duas costureiras, uma artesã, uma vendedora de doces em barraca, como camelô e duas trabalham exclusivamente como donas de casa

As atividades masculinas dividem-se em: dois vendedores em barracas de bebidas e doces como trabalhadores ambulantes, dos quais alguns também desenvolvem paralelamente a atividade de ajudante de pedreiro e eletricista.

Os trabalhadores demitidos e inseridos no mercado formal, no total de oito, dividem-se seis homens e duas mulheres. Entre as mulheres, uma trabalha como merendeira em uma escola municipal e a outra trabalhadora é caixa de uma loja comercial. Entre os homens, um é marceneiro, dois são operários em fábrica de lâmpada e indústria de alimentos e os três trabalham em firma de limpeza.

Dos trabalhadores aposentados, em número de dezoito, doze não possuem outra fonte de renda e seis possuem outros rendimentos. Dos que possuem outra fonte de renda, as atividades de trabalho se dividem em: um operário em fábrica de papel, três trabalham com barracas de bebidas e roupa, e outro trabalha como eletricista. É importante esclarecer que uma trabalhadora aposentada pela Teadit, continua a trabalhar na mesma fábrica como líder de produção.

Entre as trabalhadoras demitidas e sem condições de trabalhar devido suas condições de saúde, encontram-se 5 mulheres, todas desenvolveram seu trabalho na fiação. Quanto à sua sobrevivência econômica, recebem ajuda dos familiares.

Significado do Trabalho para as Trabalhadoras

O motivo principal que levou-as a trabalhar está diretamente relacionado à necessidade econômica. As motivações referem-se à ajuda à família, ajudar economicamente os pais (no caso das trabalhadoras solteiras), a comprar casa, a reformar a casa e a criar e proporcionar uma educação melhor aos filhos, quando são mães de família.

Ao lado da necessidade econômica existe de forma acentuada uma satisfação com a independência financeira e a autonomia psíquica alcançada com o trabalho que influencia de forma significativa sua visão como sujeitos atuantes na construção de sua própria vida e da família. Apenas uma trabalhadora disse trabalhar porque precisava criar os filhos, caso contrário não trabalharia.

Observamos através das entrevistas com os trabalhadores e das reuniões com as trabalhadoras, a relevância do trabalho não apenas pelo aspecto econômico, mas principalmente pela questão estruturante da personalidade. Sua subjetividade é influenciada pela valorização do seu trabalho e seu reconhecimento como pessoa. O aspecto contraditório do trabalho é observado pelo reconhecimento das doenças e cansaço, mas as relações sociais são consideradas importantes. Há o sentimento de injustiça vivenciada pelas trabalhadoras quanto à apropriação da sua saúde pela empresa. Há mudanças na significação que o trabalho teve para elas, mas o significado continua a ser muito importante. O sentimento de poder serem úteis e produtivas como pessoas é muito valorizado, e assume uma importância muito grande.

Esta mudança se dá quando há o reconhecimento da doença gerada pelo trabalho:

"Se eu soubesse que trabalhando na Asberit, ia acontecer o que aconteceu, se eu tivesse conhecimento eu não teria trabalhado lá, não (…) Não sabia que ia chegar ao ponto que eu cheguei. Podendo trabalhar mais doze anos, talvez mais. Talvez até me aposentar por tempo de serviço. Não tive oportunidade (…). Significa que praticamente foram 12 anos de minha vida estragados, porque se eu não tivesse trabalhado na Asberit, esse tempo todo, hoje em dia minha vida seria outra. (…) Hoje em dia você sabe o risco que está correndo lá (…).
Sabe porque vê o estado que chegou as colegas. Elas tem conhecimento disso."

Outra trabalhadora considera o seu trabalho muito importante:

"Só saí porque me mandaram embora. Eu fazia um serviço que era muito útil para outras áreas. Zapata de freio de trem, gachetas para navio. Eu era mais empresa do que eu. Eu me considerava importante. Vê os bombeiros, tão importantes."

O Trabalho Feminino

A divisão sexual do trabalho distribui os gêneros para as atividades desiguais onde umas são mais valorizadas que outras, dividindo o mundo da produção e da reprodução. Justifica-se essa fragmentação pela ideologia onde as relações sociais são representadas como coisas em si, existentes por si mesmas, e não como conseqüência das relações humanas.

Segundo Kartchevsky (1986), Neves (1988) e Lobo (1991), a posição que a mulher ocupa no mundo do trabalho está relacionada a subordinação das mulheres no conjunto da sociedade, portanto, o estudo de gênero, vem contribuir na construção desse conhecimento. As pesquisas sobre a divisão sexual, social e internacional do trabalho são múltiplas, mas o ponto comum é justamente a persistência da subordinação. As práticas sociais, familiares, culturais e de trabalho das mulheres são simultaneamente apresentadas nas relações de trabalho propriamente capitalista ou não, formais ou informais.

As relações que se estabelecem entre homens e mulheres não são puro reflexo das relações econômicas, mas se traduzem em representações e símbolos com que homens e mulheres enfrentam sua vida cotidiana. São relações assimétricas, são suas relações com a sociedade. São também relações de poder, regidas por leis e normas, tradições e hábitos. A divisão sexual do trabalho produz e reproduz a assimetria entre práticas femininas e masculinas e reproduz a subordinação de gênero (Lobo, E., 1991).

Para J. Scott (1989) o gênero é um elemento constitutivo das relações sociais baseadas nas diferenças percebidas entre os sexos, o gênero é basicamente o caminho de relações significativas de poder.

Relações de Gênero na Fábrica de Amianto

No processo de admissão dos trabalhadores e trabalhadoras, assim como o treinamento existente na empresa é igual para ambos. No entanto, na fábrica as mulheres recebem salários inferiores aos dos homens, as vezes desempenhando o mesmo tipo de trabalho. O controle junto as mulheres é maior, até mesmo no que se refere a ida ao banheiro.

As trabalhadoras fazem referências às diferenças no tratamento dado pelo contramestre às mulheres e aos homens. Há uma relação de poder em que as trabalhadoras estão subordinadas ao cargo de contramestre, como também subordinadas, em relação ao gênero.

A hierarquia fabril não se dá da mesma forma para homens e mulheres. Como por exemplo o aumento da velocidade da máquina, significando um aumento da carga de trabalho, é tratada de forma diferenciada para mulheres e homens.

Para as mulheres não havia argumento possível que fizesse o contramestre retroceder. Com os homens, a situação é diferente. Eles negociam, conversam, e há uma mudança na velocidade das máquinas.

"Quando eles reclamavam da velocidade. Eles conversavam. Eles não faziam nem cara feia e diminuíam.
Quando as trabalhadoras reclamavam da velocidade diziam:
Que nada, a velocidade está baixa! Vocês não emendam porque não querem!
Uma questão que existia era a falta de consideração. (…) Cada máquina tem 72 fusos, era para trabalhar 2 funcionários em cada máquina, num corredor. Para poder melhorar para eles, eles tiraram uma. Uma ficava em cada máquina e a outra ajudando as duas.
(…) Com os homens eles não faziam isso. Não tinham como fazer. Tinha medo de apanhar na rua.
As mulheres já eram mais frágeis. Ai agente quase não tinha tempo de ir ao banheiro.
Não tinha como deixar a máquina. Trabalhava quase oito horas sem ir ao banheiro.
No que diz respeito ao comportamento sedutor, o contramestre utilizava de atitudes tais como reduzir a velocidade da máquina, colocar um fio de melhor qualidade na máquina da trabalhadora que ele estava interessado.
Caso a trabalhadora não demostrasse interesse, esse comportamento do contramestre era modificado.
Como havia redução da velocidade, algumas máquinas produziam menos que as outras, e assim o contramestre atribuía a produção menor a outra trabalhadora, fazendo o uso de seu poder de chefia."

Quanto a valorização do trabalho, algumas trabalhadoras não consideravam seu trabalho valorizado na fábrica:

"porque quando agente é mulher existe um tempo de serviço que nunca é valorizado, nunca sai daquilo ali. Eu entendia muito. Eu dava valor a empresa. Fazia serão, dava muitas horas extras, trabalhava 40 horas semanais. Valorizavam mais os homens porque, mulher trabalha mais que os homens e em termos de salário e chefia eles sempre estavam por cima. Mandam e mandam, e as meninas ficavam ralando. No final do ano quem ganha os prêmios são eles."

Condições de Trabalho

Os sacos de amianto eram provenientes do Canadá, eram todos escritos em inglês, contudo as trabalhadoras observavam impressos nos sacos a figura de uma caveira. Através de relatos das trabalhadoras, elas ouviam dizer que o amianto brasileiro não era bom, gostavam mais do amianto canadense, pois tinham as fibras menores .

O trabalho era desenvolvido de segunda a sábado; as trabalhadoras faziam horas extras no Domingo. Um dos turnos de trabalho (três turnos) era de 5 as 14:00h, mas deviam bater o ponto 4:50, pois senão eram descontadas meia hora de seu dia de trabalho, e dois atrasos significavam a perda do Domingo.

As trabalhadoras não possuíam horário para refeição, elas próprias traziam de casa seu café e seu pão, comendo junto as máquinas, e suas refeições eram cobertas de poeira de amianto. Após o horário de trabalho poderiam almoçar. Somente depois de 1986, foi implementado o horário de almoço.

Outra peculiaridade da fábrica refere-se ao questão dos uniformes, onde as próprias trabalhadoras levava seus uniformes para serem lavados em suas casas.

A partir de 1983, começou-se a usar EPI (Equipamento de Proteção Individual), as máscaras. A partir de 1985, era exigido o uso das máscaras.
"Neste período não conseguia mais suportar as mascaras, pois já tinha dificuldades em respirar" . (Trabalhadora da fábrica de amianto no RJ)

O protetor auricular só foi implantado muito tempo depois. O calor e o ruído na fábrica é de muita intensidade, portanto não existe ventilação necessária, e o exaustor da fábrica, segundo a fala das trabalhadoras, era apenas de enfeite.

No que concerne às condições de trabalho essas são consideradas pelas trabalhadoras, como muito penosas. Com muito calor, barulho e a excessiva poeira do amianto. As máquinas com muita velocidade e os fios de amianto que se arrebentam com freqüência, obrigando a várias interrupções para dar prosseguimento ao trabalho.

A manipulação do amianto era manual e haviam máquinas obsoletas. Contudo, ainda hoje, apesar das modificações o trabalho é bastante pesado.

Mesmo vivenciando condições tão penosas de trabalho e reconhecendo os danos causados a sua saúde pela atividade laborativa em questão, as trabalhadoras consideram o trabalho importante para sua sobrevivência mas, principalmente, por possibilitar atuar no mundo como pessoas independentes.

Gostariam de não ter trabalhado na fábrica estudada e ter perdido a saúde, mas valorizam o trabalho e as relações afetivas que ali construíram. No desenvolver das reuniões de grupo, observa-se a referência ao sentimento de isolamento por ocasião da demissão do trabalho, apontando dessa forma a relevância dada pelas trabalhadoras às relações sociais desenvolvidas no trabalho e, paralelamente o sentimento de não terem sido reconhecidas como pessoas e não poderem exercer atividade profissional alguma em decorrência do seu estado de saúde.

As relações de gênero são apontadas e vivenciadas no cotidiano do trabalho. A diferença no tratamento dado a homens e mulheres é percebida e analisada pelas trabalhadoras através da suas falas e reflexões.

É importante observar como se dá concretamente a exposição das mulheres trabalhadoras na fábrica em questão. Trabalhadoras expostas ao amianto, exposição que não tinham condições de modificar, nem pela reivindicação de uma velocidade menor para as máquinas, que significaria um trabalho mais lento sem necessidade de um esforço físico tão intenso, assim como a impossibilidade de utilização de um fio de barbante mais sólido. Essas circunstâncias e o não atendimento as suas reivindicações estão relacionadas diretamente à sua condição de gênero numa atividade que reflete a posição subordinada que as mulheres tem no mundo do trabalho.

Bibliografia: