Global Asbestos Congress 2000

A SAÚDE E AS CONDIçÕES DE TRABALHO DOS TRABALHADORES EXPOSTOS AO AMIANTO DE UMA INDÚSTRIA TêXTIL NO RIO DE JANEIRO: ANÁLISE E INTERVENçãO NA REALIDADE

VANDA D'ACRI, HERMANO ALBUQUERQUE DE CASTRO,
MARIA BLANDINA MARQUES DOS SANTOS,
KATIA REIS DE SOUZA, CYRO HADDAD NOVELLO

Ministério da Saúde
Fundação Oswaldo Cruz
Escola Nacional de Saúde Pública
Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana

Introdução:

O trabalho realizado pelo Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana - CESTEH da Escola Nacional de Saúde Pública—ENSP/FIOCRUZ, junto a trabalhadores que sofrem os efeitos da exposição a fibra de amianto teve início em 1995. Partiu do atendimento médico e social feito a uma trabalhadora no CESTEH, que em decorrência de 14 anos de trabalho numa indústria têxtil que utiliza o amianto apresentava sintomas compatíveis com o diagnóstico de asbestose. Com o estudo deste caso iniciamos uma busca ativa que nos aproximou de um grupo de 73 trabalhadores demitidos desta mesma fábrica no Rio de Janeiro. Foram identificados 22 trabalhadores com o diagnóstico de asbestose, comprovados por exames clínicos, radiológicos e prova de função respiratória.

Este estudo vem contribuindo para dar visibilidade aos agravos causados a saúde dos trabalhadores pelo asbesto, revelando um quadro social e epidemiológico específico a este coletivo. Foi possível ainda iniciarmos a criação de um banco de dados que venha disponibilizar informações sobre o assunto. Pretende-se ainda contribuir para a elaboração de medidas preventivas para este setor de produção, através de órgãos competentes, como o Ministério da Saúde, as Secretarias Estaduais e Municipais e a própria Fundação Oswaldo Cruz.

Metodologia

O método de trabalho se conduz como nos dizeres de Habermas (1989 e 1990) "a uma reabilitação da esfera pública", construindo espaços de debate sobre o mundo do trabalho junto aos trabalhadores e a sociedade. Tornando o tema sobre o amianto objeto de notoriedade pública, para que seja também ação, possibilitando um refazer da vida.

Habermas propõe uma reflexão democrática radical e coletiva, e uma renegociação política da qual todos participariam. A crítica seria institucionalizada como instância de Table of Contents problematização permanente. Os potenciais de racionalidade comunicativa na linguagem e na interação seriam ativados para que todos pudessem participar do processo de descolonização do mundo do trabalho e da vida (Freitag apud Deluiz, 1995:68).

A metodologia de investigação e o trabalho social se orientaram por abordagens individuais, grupais e coletivas:

Ao nível das abordagens individuais, foram realizadas entrevistas com 41 trabalhadores através da aplicação de um instrumento específico para estudo e avaliação sobre a relação saúdetrabalho e que foi sendo ajustado para compreensão dos problemas que afetam o grupo em questão. O roteiro possui perguntas fechadas e abertas abordando as seguintes temáticas:

Dados pessoais, sociais, história ocupacional, situação de trabalho atual, condições em que exerceram seu trabalho, condições de saúde e riscos de trabalho, significado do trabalho, relações sociais, relações de gênero.

No que se refere a abordagem grupal foram realizadas reuniões que devido a ter recebido uma maior participação de mulheres foi denominado "grupo de mulheres trabalhadoras". No período de novembro de 1996 a dezembro de 1997, foram realizadas cerca de dez reuniões. As mesmas permitiram ao grupo resgatar, reflexivamente condições de vida e de trabalho a que estiveram e ainda estão submetidas. Destacamos aqui duas dessas reuniões que favoreceram uma melhor compreensão dessas relações:

1a Reunião realizada em novembro de 1996:
A dinâmica desenvolvida foi a que denominamos "Reconhecimento do Corpo", utilizando a técnica Bod Map (com papel pardo e caneta pilot). Desenhou-se no papel o corpo de uma participante e, individualmente, foram apontadas e relacionadas cada parte do corpo as queixas de saúde. A partir disso, problematizou-se, através do diálogo, as situações do processo de trabalho que causaram e causam a dor e o sofrimento dessas trabalhadoras . Esta técnica permitiu uma percepção coletiva de como o mal-estar e o adoecimento são vivências comuns ao grupo, facilitando a passagem de uma visão ingênua da doença como algo individual e biológico, para uma leitura mais crítica sobre o problema.

2a Reunião realizada em dezembro de 1996:
A dinâmica desenvolvida foi denominada de "Construção". Para isso utilizou-se como recurso sucata, usando peças de brinquedo, latas, caixas e outros. Adotou-se um jogo da linha psicodinâmica de Moreno (1993), na intenção de facilitar a fala e o diálogo entre as trabalhadoras sobre a percepção individual do processo de trabalho e adoecimento. Á medida em que cada trabalhadora se expressava ficava evidente que as representações individuais eram comuns ao coletivo do grupo. Logo, esta vivência construiu uma representação sobre trabalho e desgaste compartilhada por todas.

A continuidade do trabalho de grupo

Dando continuidade ao trabalho grupal, as discussões nas demais reuniões, ainda centravam-se na reflexão sobre a relação trabalho e saúde, sobre os danos causados pelo amianto, e dos efeitos do ambiente de trabalho à saúde dos trabalhadores. Inicialmente, a grande preocupação do grupo relacionava-se à questão da saúde. O conhecimento do diagnóstico de saúde, e os esclarecimentos das dúvidas a respeito das condições de saúde, com a equipe médica e os profissionais do CESTEH, foi tema de debate dos diversos encontros.

Foi também resultado do trabalho de grupo as discussões de propostas para melhoria das condições de saúde, e, consequentemente de vida. Resultando na ampliação do atendimento ambulatorial para estas trabalhadoras que passaram a receber tratamento homeopático e de fisioterapia respiratória,

A abordagem coletiva teve como marco os seminários nacional e internacional:

O Seminário sobre o Amianto - Panorama nacional - uso controlado ou banimento: realizado pelo CESTEH, na Escola nacional de Saúde pública, em maio de 1997, teve como objetivo trazer o debate de uma forma mais ampliada envolvendo trabalhadores, centrais sindicais, academia e a rede de serviços.

A abordagem inicial focalizou o Panorama do Amianto no Brasil. A partir da experiência de S. Paulo, através do atendimento dos ex-trabalhadores da Eternit, pela Fundacentro e da Delegacia Regional do Trabalho de Osasco, trabalho este coordenado pela engenheira Fernanda Giannasi, foi revelando uma realidade até então desconhecida, tanto para as autoridades sanitárias, como para a população em geral, e, principalmente para os próprios trabalhadores, que não tinham conhecimento da sua situação particular de risco, como também da situação de risco coletiva, da qual fazem parte.

O objetivo principal era de que o seminário desse visibilidade a uma realidade nacional até então pouco discutida. Foram apresentadas as posições: da Coordenação da Saúde do Trabalhador do Ministério da saúde; da Associação Brasileira do Amianto (ABRA); dos trabalhadores, através de seus órgãos de representação como a CUT, a CGT e a Força Sindical, e ainda de pesquisas desenvolvidas pela UNESP (campus de Araraquara), pela ABREA, pela Fundacentro e pelo CESTEH. A representação do empresariado não compareceu ao evento.

Dentre as propostas do seminário, criou-se um Fórum Estadual, composto por trabalhadores e instituições públicas de saúde da rede federal, estadual e municipal, que desempenham funções de estudos, pesquisas e serviços de assistência ao trabalhador na área de saúde. O Fórum possibilitou a formação de grupos de trabalho na perspectiva de agilizar ações conjuntas. Sendo eles: grupo de vigilância, grupo de assistência, grupo de formas de organização desses trabalhadores.

Como resultado o seminário teve como propostas: o combate à política de desinformação ; os limites do Estado no controle do amianto; as possibilidades de substituição; promoção da visibilidade do problema e as formas de ampliação do debate.

O evento denominado: Seminário Internacional - O Amianto e as Fibras Alternativas. Contou com a oficina de Avaliação Qualitativa e Quantitativa da Exposição ao Amianto e as Fibras Alternativas.

O objetivo do seminário foi dar continuidade às discussões propostas no Seminário Nacional, realizado em maio de 1997, particularmente aos temas referentes às novas tecnologias. Ainda como tema do seminário, no dia 4 realizou-se a oficina sobre avaliação qualitativa e quantitativa, que esteve relacionada aos aspectos técnicos das metodologias empregadas na avaliação da exposição, direcionada aos técnicos de laboratório que atuam nessa área de avaliação.

Quadro Teórico:

Neste estudo, optamos pela reconstrução dos vínculos entre trabalho e saúde através da análise da situação concreta dos trabalhadores do amianto desde sua inserção na fábrica. Entender a forma de como o trabalho se organiza na fábrica e na sociedade é uma questão que coloca-se para o processo formativo desses trabalhadores- cidadãos.

Na análise da situação social desses trabalhadores, compreendemos com Castell, que a realidade da sociedade do trabalho no mundo moderno, está em acelerado processo de transformação: A desestabilização salarial, a flexibilização do trabalho e o trabalho precário, hoje são problemas centrais e põe em cheque o contrato social, que até então era o eixo condutor da sociedade. Além da questão do desemprego, que é intrínseco à própria atividade de trabalho.

Configura a questão do trabalho, quanto ao valor e ao desvalor. A alienação não fere apenas a dignidade do homem, mas também seu próprio corpo, sua própria vida.

Na análise da flexibilização e da precarização, os direitos sociais estão perdendo sua validade, e o Estado do Bem-Estar vai em direção ao Estado mínimo. O desenvolvimento tecnológico aponta questões como o emprego instável, a flexibilização da produção e da própria mão de obra, assim como da legislação trabalhista. Para o autor esta situação é chamada a metáfora do contrato. A reestruturação produtiva, através da flexibilização das relações de trabalho, afeta os direitos sociais e desestabiliza a sociedade salarial, criando um fluxo de vulnerabilidade que atinge a todos. Essa vulnerabilidade não afeta apenas o salário em si, mas as articulações e vínculos que giram em torno do trabalho, havendo o aprofundamento do individualismo; o individualismo negativo.

A centralidade do trabalho é colocada em questão. Até então, O atributo vinculado ao trabalho caracterizava o status que situava e classificava um indivíduo na sociedade e parecia ter se imposto definitivamente como suporte de identidade; sendo mais forte que o pertencimento familiar ou a inscrição na comunidade concreta.

Reaparece o perfil de trabalhadores sem trabalho, são os "supranumerários", "os inúteis para o mundo," sendo difícil avaliar o significado exato desse acontecimento, assim como, enfrentar essa situação, que é inédita nesse século.

Para Castell, a questão social, se manifesta hoje a partir do enfraquecimento da condição salarial, e a exclusão é um dos seus efeitos essenciais. A estrutura de nossa formação social, deve-se ao estatuto do salário que embora tenha ficado muito tempo à margem da sociedade, por fim se desenvolveu até envolvê-la.

Segundo o autor, a característica mais perturbadora da situação atual é o reaparecimento de um perfil de "trabalhadores sem trabalho," que Hannah Arendt evoca, os quais literalmente ocupam na sociedade um lugar de supranumerários, de inúteis para o mundo.

Para análise desta questão, o autor aponta alguns elementos baseados em uma perspectiva histórica de elementos importantes para a construção de uma sociedade de sujeitos independentes.

  1. O todo econômico nunca fundou uma ordem social numa sociedade complexa;
  2. a solidariedade não é mais um dado, mas um construído;
  3. a propriedade social é, simultaneamente, compatível com o patrimônio privado, e necessária para inseri-lo em estratégias coletivas;
  4. O salário, para escapar de sua indignidade secular não pode se reduzir a simples remuneração de uma tarefa;
  5. a necessidade de preparar para cada um, um lugar numa sociedade democrática, não pode ser realizada por meio da completa transformação da sociedade em mercadoria.

Para que ocorra a crença de que o amanhã será melhor que hoje, e, de que se pode confiar no futuro, é fundamental a representação do Estado como ator central, que conduza estratégias que sejam cumpridas pelos diversos atores sociais que aceitem objetivos sensatos e cumpram seus compromissos.

"É através do ideal social-democrata que o Estado social surge como princípio do governo da sociedade, a força motriz que deve assumir a responsabilidade pela melhoria progressiva da condição de todos". (Castell, 1998).

O autor coloca que "a proteção de todos pela solidariedade, e a proteção dos ativos pelos seguros, entrou em contradição quando a população ativa se tornou minoritária. O desemprego é o ponto fraco do Estado Social dos anos de crescimento, a configuração que então assumiu baseava-se em um regime de trabalho que hoje está profundamente abalado". (Castell, 1998)

O processo educativo junto a trabalhadores
Figure 1

As categorias até aqui levantadas vem fundamentando o planejamento e a implementação de uma ação educativa junto a trabalhadores, se expressa como movimento contra-hegemonico, que aponta para a possibilidade de superação das contradições estruturais produzidas no atual panorama de organização do capital. Dentre elas:

A equipe assumindo a centralidade do trabalho enquanto relação social fundamental, isto é, enquanto principal atividade de apropriação, organização e transformação de suas vidas e do mundo, ancora a construção da nossa proposta no desenvolvimento de um projeto pedagógicocrítico, que crie a possibilidade de um rompimento com a estrutura de dominação vigente, reconhecendo no trabalho o nosso princípio educativo primeiro. Reafirmamos ser ele a categoria fundamental, o ponto de partida da reflexão sobre o processo saúde-doença nos ambientes de trabalho. Assumimos com Arroyo (1998) a centralidade do trabalho humano como constituinte da condição humana.

A pedagogia crítica moderna cujos principais autores brasileiros contemporâneos, que a representam: Freire no campo da educação popular e Frigotto, Arroyo e Nosella, no campo da educação e trabalho. Estes autores nos colocam que a verdadeira função da educação não é outra senão a de humanizar o homem na ação consciente que este deve fazer para transformar o mundo. Afinal ser relação humana é o que confere sentido específico a educação. Neste sentido o diálogo configura-se como elemento central deste processo.

Do ponto de vista do diálogo como processo de produção de conhecimento, ele é a possibilidade histórica no campo da saúde do trabalhador, da interação entre trabalhadores e pesquisadores, sujeitos de linguagem e vidas diferentes, se tornarem sujeitos da construção de uma nova ciência de uma nova cultura. Sendo assim é um diálogo formativo, como sugerido nos princípios da relação entre trabalhadores e intelectuais de esquerda no modelo operário italiano. (Odone, 1986)

Entendemos que este diálogo enquanto processo formativo/educativo apresenta notadamente, algumas características na relação de construção dos sujeitos de conhecimento: Emancipador - Enquanto o encontro dos homens mediatizados pelo mundo. Segundo Paulo Freire: "Dissemos que a educação como situação gnosiológica, significa a problematização do conteúdo sobre o qual se co-intencionam educador e educando, como sujeitos cognoscentes. Nesta co-intencionalidade do objeto, os sujeitos cognoscentes vão penetrando nele, em busca de sua "razão"…deste modo, o objeto (que pode ser uma situação-problema), vai se "entregando" aos sujeitos cognoscentes como parte de uma totalidade maior. (Freire, P. 1977. 85)

É a possibilidade da emancipação humana. Segundo Vitória Camps, o sistema econômico que fundamenta a lógica e o triunfo do néo-liberalismo não vai contribuir para humanizar as pessoas, ao contrário só funciona para embrutece-las. Neste sentido o diálogo emancipador significa processo de humanização, aproximação entre os trabalhadores para o diálogo sobre os processos de trabalho que geram adoecimento e morte, recriando possibilidades de vida, de modificações na realidade cotidiana para construção de pequenas e continuadas lutas diárias. Frigotto afirma que há sobretudo um processo de esterilização da capacidade humana de criar e produzir…, os modernos círculos de controle de qualidade sinaliza um dos mecanismos mais sutis de expropriação de saber e do conhecimento operário. (Frigotto, 1998)

A proposta de Diálogo Emancipador recria os vínculos de solidariedade entre os trabalhadores através de um processo de conhecimento e discussão sobre o trabalho, gerando autonomia de ações. Segundo Castels a solidariedade não é um dado, mas algo construído e, assim completando este pensamento recorremos a Nosella (1995), que defende a construção de uma "pedagogia concreta"…Uma pedagogia que move-se em determinado horizonte político e que junto aos trabalhadores pode, hoje, oferecer uma aula sobre dados levantados e analisados pelo grupo de pesquisadores e amanhã, decidir conjuntamente com eles por uma aula que discuta as mudanças pela humanização dos ambientes de trabalho. Portanto, organizamos também as atividades pedagógicas para consolidação e transformações que possam vir a ocorrer no mundo do trabalho, atendendo aos interesses dos trabalhadores e aos processos que através das relações humanas constróem os vínculos de solidariedade.

Conscientizador - É praxis que, como coloca Freire é a exigência da superação da contradição educador-educando, pesquisador-pesquisando, sujeito-objeto que implica ação-reflexão dos homens sobre o mundo para transformá-lo. É o reconhecimento do trabalhador como sujeito do conhecimento e sobre o processo de trabalho e, como postula o Modelo Sindical Italiano, temos como desafios: "recuperar o saber operário, incorporação do conhecimento técnico, a construção de uma nova cultura, a aliança dos trabalhadores e intelectuais" (Odone. 1986), configurando-se enquanto diálogo num processo formativo por excelência, desconstruindo as formas históricas que oprimem e desmistificando o conhecimento construído sobre bases científicas como inatingíveis pelos trabalhadores. Temos assim, como horizonte político, um ideal de emancipação que se concretiza em um processo pedagógico assim sistematizado.

Estratégias do Trabalho Formativo/Educativo:

A experiência vem nos confirmando que tanto as abordagens de grupo quanto as coletivas vem dando respostas ao processo de formação de trabalhadores. Objetiva-se a reconstrução dos vínculos entre trabalho e saúde através de novas relações entre os sujeitos no mundo do trabalho.

I- Abordagem Grupal
Ampliação do trabalho com grupo de trabalhadores. É a possibilidade real do diálogo humanizador e emancipador que recupera os vínculos de solidariedade entre os trabalhadores, a partir da problematização dos processos de trabalho a que foram submetidos. Planejamento participativo do universo temático, geradores e potencializadores para estabelecermos a relação entre trabalho e saúde.

Dentre os temas a serem trabalhados citamos alguns que já foram consenso em reuniões realizadas:

  1. Retorno dos dados revelados pela pesquisa até então;
  2. Construção de vínculos de solidariedade entre os trabalhadores;
  3. Discussão dos direitos e construção da cidadania;
  4. Experiências e subjetividades dos trabalhadores.

II- Abordagem Coletiva
Recuperar os fóruns de discussão sobre a temática do amianto e saúde, com a finalidade de debater a problemática e formas de enfrentamento para mudanças na realidade em estreita articulação com outros órgãos do governo e representação dos trabalhadores.

Resultados:

1-Estudo por Amostragem

Foram entrevistados 41 trabalhadores, sendo que 23 mulheres e 18 homens durante o ano de 1998 e início de janeiro de 1999 (Gráfico 1). A amostra correspondeu a 57% do sexo feminino e 43% do sexo masculino. Na época da pesquisa, os trabalhadores encontravam-se na faixa etária entre 33 a 68 anos de idade, correspondendo, a uma média de 51 anos.

Figure 2

A Entrada na Fábrica

A idade inicial que os trabalhadores deram entrada na fábrica , variava de 18 a 42 anos e, a admissão média dos trabalhadores foi de 28 anos de idade.

A Saída da Fábrica

A saída dos trabalhadores, incluía trabalhadores de 22 a 61 anos, entre demitidos e aposentados da fábrica. A idade média na época da demissão foi de 43 anos de idade. Excluindose os 8 trabalhadores aposentados, que compreende a 15,5% da amostra, a idade média dos trabalhadores demitidos foi de 40 anos.

Ocupação na Teadit ( ex Asberit):

Entre os trabalhadores entrevistados, o setor de produção que concentra o maior número de trabalhadores é a fiação, com 46.4%, em segundo lugar temos a tecelagem com 22%; setores predominantemente feminino. Em seguida vem o PH, que corresponde a 17%, setor predominantemente masculino. (Quadro 1 e Gráfico2).

Quadro 1
Setor (ocupação na fábrica) Freqüência Percentual %
Fiação 19 46.4%
Papelão Hidráulico (PH) 7 17.0%
Tecelagem 9 22.0%
Eletricista de máquinas 1 2.4%
Copeiro 1 2.4%
Manutenção de parte elétrica 1 2.4%
Gacheta 3 7.4%
Total: 41 100.0%

A maioria dos trabalhadores desenvolveram diversas atividades na fábrica, passando por setores distintos, que exigiam do trabalhador conhecimento de diversas funções.

Figure 3

O Tempo de Serviço

Pelo gráfico 3 observa-se que o tempo de serviço situa-se entre 3 a 27 anos de contrato, na mesma empresa. A maior concentração dos trabalhadores dessa amostra, se dá no período de 10 a 15 anos de trabalho, período em que a maioria foi demitida. A média de permanência na atividade laborativa gira em torno de 15 anos de trabalho.

Entre os trabalhadores com onze anos de serviço, três distribuem-se da seguinte forma: 11 anos, 11 anos e 2 meses e 11 anos e 6 meses. Os demais tem 13,14,14 anos e 6 meses, 17 anos, 18 e 19 anos. Acima de 20 anos , distribuem-se entre: 20,21,24,25 e 27 anos de trabalho na fábrica.

Figure 4

Escolaridade

O nível de escolaridade dos trabalhadores concentra-se em sua grande maioria, no 1º grau incompleto, situado em torno do 3º ano do antigo primário. Vinte e seis trabalhadores (63.4%) incluem-se nessa faixa; um trabalhador (2,5%) tem apenas a alfabetização, e , quatorze trabalhadores (34.1%), possuem o 1º grau completo. É importante ressaltar, que nenhum trabalhador entrevistado possui o 2º ou 3º grau completos. (Gráfico 4)

Figure 5

Todos os trabalhadores tiveram "treinamento" na fábrica. Embora, não tenha sido este treinamento qualificado e fornecido por profissionais responsáveis para essa função. Os trabalhadores aprendiam com outro colega, que já estava na fábrica há mais tempo, era orientado também, em alguns casos, pelo contramestre. Na maioria das vezes, o período de treinamento variava de uma a duas semanas.

O Diagnóstico
Dos quarenta e um trabalhadores entrevistados, 15 foram diagnosticados como portadores de asbestose e 26 foram considerados normais, correspondendo a 36% da amostra. (Gráfico 8) Entre os trabalhadores com diagnóstico de asbestose 60% corresponde a 9 trabalhadores do sexo feminino e 40 %, corresponde a 6 trabalhadores do sexo masculino. (Gráfico 9)
Diagnóstico e Tempo de Serviço:

Figure 6

Dos quinze casos diagnosticados com asbestose, correspondendo a 36% da amostra, o tempo médio de serviço na empresa foi de 17 anos (Gráfico 10). No entanto, isso ocorre porque três trabalhadores tem mais de vinte anos de trabalho na empresa, elevando dessa forma a média do tempo de serviço. Observa-se que 47% dos casos, em número de 7 trabalhadores, situa-se entre 9 a 15 anos de serviço. É importante ressaltar, que uma trabalhadora apresenta o diagnóstico de asbestose com apenas 9 anos de serviço.

Estes dados revelam a intensificação da exposição dos trabalhadores ao asbesto, através do posto de trabalho. A realização de horas extras, aumentando o tempo de exposição à fibra, significa também o maior dispêndio de energia, e o esforço físico .

Trabalhadores de uma indústria têxtil de amianto com diagnóstico de asbestose segundo tempo de serviço e função. Rio de Janeiro, 1998-1999.
Nome (Iniciais) Tempo de Serviço Função Trabalho Atual Diagnóstico
C. M. A . 25 anos Tecelã Aposentada Asbestose
D. P. S. 13 anos Eletricista de máquinas Aposentado Asbestose
D. C. A . 21 anos Fiandeira Aposentada Asbestose
E S. 11 anos e 6 meses calandrista, trabalhou no PH Trabalha na GE Asbestose
I. D. O . 18 anos Gacheta/fiação Aposentado, mas trabalha na feira. Asbestose
M. L.C. 11 anos Fiandeira Merendeira no município de Paraty. Asbestose
M. A . G. S. 19 anos Tecelã Aposentada Asbestose
M. L. V. 9 anos Fiandeira Desempregada Asbestose
N. S. S. 20 anos Gacheta/fiação Desempregado, faz trabalhos informais e trabalha em barraca de bebidas. Asbestose
O .S. 24 anos Calandrista Aposentado, tem barraca de bebidas. Asbestose
R. A . A . 14 anos Fiandeira Aposentada Asbestose
R. M. N. 11 anos e 2 meses Fiandeira Desempregada Asbestose
V. C. 27 anos Fiação/Cardista Aposentado Asbestose
V. M. 17 anos Fiandeira Desempregada Asbestose
W. F. 14 e 6 meses Fiandeira Licenciada pelo INSS Asbestose

Total: 15 Trabalhadores. Freqüência = Mulheres: 9 Homens: 6 ( três na fiação; um eletricista de máquinas; dois no PH)

Figure 7

De 41 trabalhadores, 15 tem o diagnóstico de asbestose. Os trabalhadores que não tem o diagnóstico de asbestose, reclamam em sua totalidade de falta de ar e demais problemas, tais como dores nas articulações, sistema nervoso abalado, dores de cabeça, problemas dermatológicos, etc.

Dentre estes trabalhadores que desenvolveram algum tipo de problema de saúde, podemos citar o exemplo de quatro trabalhadores, que assim que retornaram de suas internações médicas foram demitidos. Estes trabalhadores apresentavam o diagnóstico de Tuberculose e pneumonia.

Diagnóstico de Asbestose e Posto de Trabalho: A Fiação a Tecelagem e o Papelão Hidráulico (PH) :

Pelo gráfico 11 observa-se que dez trabalhadores com diagnóstico de asbestose desenvolveram suas atividades na Fiação, dos quais 7 eram mulheres e três homens que desenvolviam suas atividades, um na calandra e dois na gacheta. A fiação é o setor considerado como um dos mais contaminados devido a presença excessiva poeira de amianto no ambiente. Os demais trabalhadores distribuem-se da seguinte forma: duas trabalhadoras da tecelagem, um eletricista de máquina; dois calandristas, cuja função é exercida no setor denominado ph (papelão hidráulico), que junto a fiação é considerado um dos setores mais insalubres e perigoso, pois além do amianto, existe também a exposição a solventes quimicos.

Figure 8

História Ocupacional:

Ocupações Anteriores:

Das ocupações anteriores, observa-se pelo quadro 8 e gráfico 14 que 17.0% não tiveram nenhuma experiência de trabalho anterior à fábrica de amianto. As atividades de emprego doméstico e trabalho na agricultura correspondem a 29.5%. Apenas três trabalhadores, correspondendo a 4.8 % da amostra, desenvolveram atividades em tecelagem, fiação e de auxiliar de produção em um moinho.

As demais atividades, em número de vinte trabalhadores, tais como metalúrgico, trocador de ônibus comerciário, servente de obra, auxiliar de produção, etc, correspondem a 48.7% da amostra. Portanto, a história ocupacional dos trabalhadores não relata nenhuma atividade anterior com asbesto, sendo a morbidade dos trabalhadores, resultante do trabalho desenvolvido nesta única indústria.

Figure 9

Trabalhadores que possuem familiares trabalhando na fábrica

Outro fato que é de suma importância, levantado pela pesquisa, é a ligação dos trabalhadores que residem no Rio de Janeiro, com outras pessoas, parentes ou amigos, de seu Estado de origem, que são incentivados pela direção da fábrica a chama-los para trabalhar na mesma. O percentual de 24.3 % de trabalhadores naturais do Espirito Santo, revela, a rede de relações entre eles, incentivados pela empresa que aconselhava a chamar amigos e parentes.

Da amostra de 41 trabalhadores entrevistados, 16 tem ou tiveram familiares que trabalharam na empresa, correspondendo a 39 % dos trabalhadores.

É importante observar que, desses, 25% em número de 4, tem mais de quatro familiares na fábrica. Temos ainda 25% que possuem de 2 a 4 familiares na empresa.

Ressalta-se a situação de quatro trabalhadores, cujos familiares que trabalharam na fábrica, apresentam o diagnóstico de asbestose.

Três trabalhadores, entrevistados pela pesquisa, que são irmãos, possuem o diagnóstico de asbestose; Relatam ainda que mais dois irmãos, dois primos e um cunhado, possuem o mesmo diagnóstico. Com o tempo de trabalho que varia de 11 a 25 anos de trabalho. Os demais parentes que trabalharam ou trabalham na fábrica eles desconhecem o diagnóstico.

Outra trabalhadora, com 21 anos de trabalho, e com o diagnóstico de asbestose; tem o marido com estágio avançado da doença, o cunhado e a irmã também com diagnóstico de asbestose.

Figure 10

Situação de Trabalho Atual

Por ocasião da saída da fábrica dos 41 trabalhadores entrevistados, apenas 8, correspondendo a 19.5% da amostra, foram aposentados, os demais foram demitidos da empresa, e, com o decorrer do tempo muitos trabalhadores completaram o tempo de aposentadoria.

Dentre os dez trabalhadores demitidos e inseridos no mercado informal, 2 trabalhadoras não estão trabalhando atualmente, uma recebe pensão do marido e a outra trabalhadora cuida da casa.

A situação de trabalho atual apresenta o seguinte quadro: 10 trabalhadores, correspondendo a 24% do total, estão demitidos e desenvolvem atividades de trabalho informal. Oito trabalhadores, correspondendo a 19.5%, estão empregados no mercado formal; 6 trabalhadores, correspondendo a 14.6%, estão aposentados com outras fontes de renda, desenvolvendo trabalhos no mercado informal; 12 trabalhadores, correspondendo a 29.4%, estão aposentados e não possuem outras fontes de renda, e, finalmente 5 trabalhadoras, todos do sexo feminino, correspondendo a 12.1%, estão demitidas e impossibilitadas de trabalhar devido as precárias condições de saúde, resultantes dos anos de trabalho na indústria têxtil do amianto, principalmente no setor da fiação.

Figure 11

Diagnóstico e Tempo de Serviço

O número de 7 trabalhadores, correspondendo ao percentual de 36% de trabalhadores com diagnóstico de asbestose, onde a concentração por tempo de serviço se dá entre 9 e 15 anos, correspondendo a 47%; do total de trabalhadores doentes, revela a grande morbidade causada pela indústria do amianto.

Este é o período em que os sintomas da doença, começam a aparecer: cansaço, dificuldades respiratórias com conseqüente redução da produtividade.

Os sintomas e o tempo de serviço, são os sinais a partir dos quais os trabalhadores são demitidos. Esta forma de gerenciamento dos recursos humanos da empresa, demonstra que a lógica da demissão já está dada no próprio momento da admissão dos trabalhadores.

A morbidade é esperada, porém não é nunca anunciada. A empresa não presta informação sobre os danos causados pelo amianto e não fornece nenhum diagnóstico aos trabalhadores. Além disso, nega-se a reconhecer o nexo causal da asbestose relacionada a atividade na indústria, após comprovação do diagnóstico feito pelo CESTEH. Assim, periodicamente, um grupo de trabalhadores com tempo de serviço entre 10 e 15 anos, e com os sintomas assinalados acima, é demitido.

Concluímos que o perfil de morbi-mortalidade dos trabalhadores demostrado pelos resultados do estudo é extremamente significativo para a intervenção na área de saúde pública, no que diz respeito aos aspectos preventivos, tratamento e contribuição à elaboração de uma política nacional para o setor.

Os trabalhadores, parcela mais atingida no processo de reestruturação produtiva da sociedade brasileira, passam ainda hoje por condições sub-humanas relacionadas a situação de trabalho e saúde, como nos mostra os dados analisados, configurando um quadro de extrema decadência de suas condições de vida e inexistência de direitos universais, tais como o direito a saúde e, consequentemente, a vida.

III- A construção de um sujeito coletivo de luta pela saúde: A ABREA-RJ

Um dos resultados significativos deste processo vem sendo também a construção de uma representação da ABREA (Associação Brasileira de Expostos ao Amianto) no Rio de Janeiro. Este é um processo coletivo de luta que envolve distintos atores e parceiros: FIOCRUZ (Fundação Osvaldo Cruz); ALERJ (Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro/Gabinete do Deputado Estadual Carlos Minc) e advogados afinados com os interesses dos trabalhadores.

A experiência de vida e de trabalho é o centro do processo educativo que visa a reconstituição articulada e coerente da situação concreta desses trabalhadores para que se possa transformar em ação coletiva e organizada o questionamento da realidade social.

Bibliografia: